quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Meu filho é um campeão




Conheça a história de três famílias que encontraram a superação das deficiências no esporte

Ana Carolina Addario, especial para o iG São Paulo 
Brenda Pepe de Souza é uma adolescente de 16 anos. Cursa o ensino médio em uma escola estadual da zona sul de São Paulo e tem uma rotina como a de qualquer outra jovem de sua idade: acorda cedo, estuda, almoça e à tarde tem uma agenda cheia de atividades. Do outro lado da cidade, Cauan Felipe Anacleto Bueno também acorda cedo para ir à escola e pratica suas atividades extracurriculares à tarde. Aos 18, como qualquer jovem da sua idade, faz tudo sozinho. E de Iguapé, litoral paulista, mesmo um pouco atrasado na escola, o menino Kennedy Patrick de Moraes Mano, de 15 anos, também divide seu tempo entre a rotina e suas grandes paixões.

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Brenda, Cauan e Kennedy levam uma vida bem igual à de outros jovens de sua idade. Igual, mas diferente: o trio faz parte da Delegação Paulista de Atletas Paraolímpicos e disputa títulos de âmbito nacional. E, se ser medalha de ouro nesta idade não é para qualquer um, imagina ser campeão contra todas as dificuldades de uma condição especial?

Foto: Edu Cesar/FotoarenaAmpliar 
Cauan, Brenda e Kennedy: superação no esporte
Muitas famílias com crianças portadoras de deficiência se perguntam como lidar com as limitações. A resposta pode estar no esporte. Na história de sucesso de Brenda, Cauan e Kennedy, o apoio e confiança da família cresceram juntamente à dedicação dos três às modalidades eleitas. Antes desconfiadas e inseguras em relação aos resultados que as crianças poderiam alcançar, as mães e avós deles hoje são as maiores fãs dos jovens atletas e confiam mais em seus filhos e netos do que eles mesmos imaginam.

De olho vivo nos Jogos Paraolímpicos no Rio em 2016, Brenda, Cauan e Kennedy entraram com tudo nas Paraolimpíadas Escolares, um dos maiores campeonatos nacionais para atletas em ascensão. Os jogos, encerrados ontem, foram criados com o intuito de revelar jovens talentos para representar o Brasil nas disputas mundiais, além de incentivar a inserção de crianças e jovens com algum tipo de deficiência no mundo dos esportes. Com atletas competindo em 20 modalidades, as Paraolimpíadas Escolares são motivo de um ano inteiro de muito treino e dedicação.

A cada edição, os três dias de jogos reúnem não só atletas, mas centenas de histórias de vencedores como Brenda, Cauan e Kennedy, que fizeram de São Paulo a delegação mais premiada deste ano, contabilizando 160 medalhas – 96 ouros, 43 pratas e 21 bronzes. O plano dos três atletas é seguir treinando para conseguir a tão disputada vaga nos Jogos Paraolímpicos no Rio em 2016. Conheça aqui as histórias deles e de suas famílias, transformadas pela força do apoio e pelo incentivo ao esporte.


Foto: Edu Cesar/FotoarenaAmpliar 
Brenda levou 4 medalhas de ouro nas Paraolimpíadas Escolares: avó não perde um treino
Esportista nata

Brenda nasceu com deformidades fixas nas articulações e nos músculos da panturrilha, atrofiados durante seu crescimento. A doença, chamada artrogripose, tornou-a paraplégica ainda muito nova. Durante toda a vida, Brenda fez fisioterapia para interromper ou ao menos retardar a o processo. Depois de 10 anos sem resultados, a menina recebeu a indicação de seu médico para procurar algum esporte. “Ele sugeriu a prática da natação, que é um esporte completo e poderia ajudar no meu caso”, lembra ela. Na mesma época, ela ganhou um adesivo do Clube dos Paraplégicos de São Paulo e quis saber quais atividades ofereciam por ali. Bingo. Entrou para o mundo da natação e nunca mais saiu.

No começo, a rotina de Brenda era ir à escola de manhã e nadar três vezes por semana à tarde. Mas ela pegou gosto pelo esporte e decidiu competir. De olho no potencial da menina, o Sesi fez um convite para treiná-la com e o resultado só podia ser positivo. O apoio da família foi determinante para seu desenvolvimento. “No começo, achávamos que seria só um esporte e uma alternativa à fisioterapia. Mas aí ela começou a ganhar medalhas, e vimos que a coisa era séria mesmo”, conta Hercy Pepe, avó de Brenda, por quem a menina foi criada. Com isso, a relação das duas ficou ainda mais próxima. “Acompanho sempre os treinos dela, não perco um”, completa.

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De lá para cá, Brenda começou a treinar todos os dias, dedicando 6 horas da agenda à natação. Participou de jogos regionais, foi campeã brasileira em 2008 e, em 2009, venceu quatro provas em sua estreia nas Paraolimpíadas Escolares. Em 2010, repetiu o resultado e ganhou mais três provas no mesmo campeonato – este ano ela concorreu em 7 categorias. Levou 4 medalhas de ouro e uma de prata.

 
Foto: Edu Cesar/FotoarenaAmpliar 
Cauan: no futebol de cinco, o reforço para a criação independente dada pela avó
Troféu independência

Recentemente, Cauan, de 18 anos, reuniu seus documentos, pegou um ônibus perto de sua casa, no bairro da Aclimação, em São Paulo, e foi sozinho até o Poupatempo, centro de serviços públicos, resolver pendências em seu nome. O jovem é do tipo que prepara sua própria comida, lava a louça e ajuda com as tarefas de casa. “Ele faz praticamente tudo sozinho. Criei-o para ser uma pessoa independente”, conta Lucia Jurema Anacleto Bueno, avó e responsável legal do garoto. Cauan é cego e joga futebol de cinco. Nesta adaptação do esporte, só o goleiro enxerga e a bola carrega uma espécie de guizo que revela seus movimentos através do som.

Cauan nasceu com glaucoma em um olho e passou a primeira parte da infância enxergando de um olho só. Aos sete anos, ele sofreu um acidente enquanto brincava em casa e perdeu a visão boa, ficando totalmente cego. Mas isso não foi motivo de desespero. A avó redobrou as atenções e ensinamentos ao menino, para que ele pegasse ainda mais ‘jeito de sobreviver sozinho’. “Ele sempre foi um garoto muito tranquilo. Ensinei tudo que ele precisava saber e sempre soube que ele conseguiria”, afirma a avó.

Quando Cauan fez 14 anos, Lucia teve um problema no joelho e passou a ter dificuldades de acompanhá-lo o tempo todo. Foi aí que ela resolveu dar um passo ainda maior. “Quando percebi que não poderia mais acompanhá-lo sempre, resolvi colocá-lo na mobilidade. No começo fiquei com medo de deixá-lo, mas ele aprendeu a fazer tudo sozinho”, conta.

A confiança de Lúcia fez com que Cauan se sentisse mais confiante também. Foi então que ele entrou para a banda da escola, onde toca percussão, e começou a jogar futebol. Com quatro anos no esporte, Cauan já participou de duas Paraolimpíadas Escolares e arrebatou três medalhas ao lado de sua equipe.
A avó criou Cauan para o mundo e sabe que não poderia ter feito melhor. A segurança que sempre procurou passar ao neto foi correspondida pela capacidade desenvolvida por ele para enfrentar o mundo sozinho. “Hoje ele tem total liberdade de ir e vir. Sei que quando ele quiser ter sua própria vida, vai caminhar com as próprias pernas”, completou a avó, que atualmente corre atrás de patrocínio para impulsionar a carreira do neto.

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Foto: Edu Cesar/FotoarenaAmpliar 
Kennedy: paixão pelo tênis de mesa
Atleta e artista

Kennedy é um ótimo aluno e se dedica com muito empenho aos estudos, mesmo quando sente dificuldade para resolver questões de matemática. Mas os percalços não abalam o entusiasmo do garoto de 15 anos para se dedicar às suas paixões: jogar tênis de mesa e desenhar.

Aos 4 anos de idade, Kennedy bateu a cabeça e precisou de atendimento médico imediato. No hospital, constataram que a batida havia formado um coágulo no cérebro e o submeteram a uma cirurgia de urgência. O coágulo foi drenado, mas deixou sequelas. Kennedy teve uma área do cérebro responsável pela cognição afetada e, com isso, passou a ter dificuldade de aprendizagem e um atraso em relação às crianças de sua idade.

Difícil para a família? Só no começo. “Começamos a buscar escolas capazes de dar mais atenção ao caso dele e a perceber o que ele gostava de fazer e em que se dava bem”, conta Flávia Cristina de Moraes Mano, mãe do garoto.

Kennedy sempre gostou de jogar bola com os amigos. E foi por um deles que ele descobriu uma escola de tênis de mesa para crianças especiais. Sua vida mudou. Desde os 12 anos treinando três vezes por semana, ele já garantiu duas passagens para as Paraolimpíadas Escolares e não falta aos treinos nem se cair um dilúvio. “Ele ama jogar tênis e se preocupa em estar sempre melhorando. Além disso, ele desenha muito bem. É novinho, mas é talentoso como um artista”, elogia a mãe, que mudou seu modo de enxergar o filho graças ao esporte.

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